ALGUNS ASPECTOS DO VÍNCULO MÃE-FILHO NA ALIMENTAÇÃO
Na vida de todos nós, grande parte da alegria e da tristeza gira em torno de ligações ou relacionamentos afetivos – ao estabelecê-los, rompê-los, quando nos preparamos para eles e quando nos ajustamos à sua perda pela morte.
Em essência, os vínculos que vamos nos tornando capazes de fazer ao longo da vida é tudo que temos. Mesmo aqueles que já não estão mais conosco fazem parte de nosso repertório afetivo e têm alguma influência na forma como nos portamos no mundo porque interiorizamos nossos objetos de amor e ódio e, assim, passam a fazer parte de nossas vidas emocionais.
O amor materno é uma questão bastante singular e rudimentar. Nele estão contidos, posse, apetite, há o elemento “criança maldita”, há generosidade, há poder, há humildade.
O apego pode ser definido como um relacionamento único entre duas pessoas, específico e duradouro ao longo do tempo. Como indicadores deste apego temos comportamentos de apego, tais como: acariciar, beijar, aconchegar, trocar olhares prolongadamente, que servem tanto para manter contato como para mostrar afeição por determinada pessoa.
O vínculo dos pais com seus filhos deve ser o mais forte de todos os laços humanos. Esta relação possui duas características ímpares: antes de nascer, o bebê individual se desenvolve dentro do corpo da mãe, e após o nascimento ela garante sua sobrevivência enquanto este é inteiramente dependente dela, até que se torne um ser independente.
É interessante refletir que o poder deste apego é tão grande que capacita a mãe e o pai a fazerem sacrifícios extraordinários, necessários ao cuidado do bebê, dia após dia, noite após noite: trocar suas fraldas, conter seu choro, protegê-lo do perigo e alimentá-lo no meio da noite, apesar da necessidade desesperada de dormirem.
Este laço original é a fonte principal para todas as ligações subseqüentes do bebê e é o relacionamento formativo, no decorrer do qual a criança desenvolve um sentido de si mesma. É importante lembrar que a força e o caráter deste apego vão influenciar, por toda sua vida, a qualidade de todos os laços futuros com outros indivíduos.
Desta forma, como em qualquer outro relacionamento, as duas pessoas, mãe e filho, vão construindo uma “identidade” da relação. Um clima vai se estabelecendo de acordo com as desavenças e acertos, decepções e conquistas e é este clima que vai preponderar sobre a qualidade do vínculo entre os dois.
É claro que também depende da fase de vida em que estão, principalmente se a mãe está em boas condições emocionais, se se sente feliz, como mãe, esposa e mulher. Se sente realizada profissionalmente, ou ainda, senão, principalmente, se sente amada e amparada, em suas dúvidas e conflitos, por seu companheiro.
Falando em “habilidade materna” é importante lembrar de Winnicott. Traz em sua visão de maternagem alguns aspectos do cuidado materno como, “holding”, “preocupação materna primária” e “mãe suficientemente boa”, são extremamente importantes para a qualidade da relação mãe/filho, na preparação para a chegada do bebê e posteriormente, nos cuidados com ele.
O termo Holding é utilizado para significar não apenas o segurar físico de um lactente, mas também a provisão ambiental total determinada pela percepção e empatia da mãe. Na fase do holding o lactente é dependente ao máximo.
Neste estado, quando o cuidado materno é em grande parte uma questão de profilaxia, ele não pode assumir o controle sobre o que é bem ou mal feito, mas apenas está em posição de se beneficiar ou de sofrer distúrbios. Preocupação materna primária é um termo usado para expressar o estado regressivo natural e muito especial da mãe.
Pode ocorrer desde os primeiros meses da gestação, a qual intensifica-se no final desse período, mantêm-se nos meses iniciais de vida do bebê e diminui gradativamente com o desenvolvimento da criança.
Este estado provoca aumento da sensibilidade materna e tem a função de preparar a mãe para o vínculo afetivo com seu bebê, além de fornecer um contexto para que a constituição da criança comece a se manifestar e para que o bebê se torne dono das sensações correspondentes a essa etapa inicial de vida e das estapas subseqüentes.
O conceito de mãe suficientemente boa refere-se à capacidade materna para cuidar do filho e à compreensão intuitiva de suas necessidades afetivas, proteção, segurança, bem como das necessidades físicas, como nutrição e higiene.
Deste modo, um “ambiente suficientemente bom” facilita esses estados maternos. Inclui-se aí a presença do pai, cuja função nesse momento será de oferecer apoio emocional à companheira, que se traduz por afeto, suporte financeiro e divisão de tarefas domésticas.
Importante também é o apoio oferecido por pessoas próximas como parentes e amigos, fundamentais no auxílio e nos cuidados com a mãe, condição essencial para que ela possa exercer sua tarefa.
O vínculo da mãe com seu filho, sem deixar de levar em conta fatores genéticos e ambientais entre outros, tem importante lugar para o desenvolvimento de traços de personalidade e suas conseqüentes variações.
Nosso primeiro contato com o mundo externo, pós-nascimento, se dá por via oral. É pela boca, ou seja, por meio do seio da mãe e dos seus cuidados físicos e afetivos que as sensações e percepções vão sendo nomeadas e transformadas, paulatinamente, em algo mais simbólico - as emoções, que por sua vez, também serão passíveis de significação.
Esta evolução se dá a todo momento e vem junto com a qualidade da relação que vai se estabelecendo entre mãe e bebê e com o amadurecimento de seu equipamento neuromotor e fisiológico.
É certo que quanto mais a mãe estiver emocionalmente disponível para a criança, mais e melhores condições terão para ajudar a organizar o mundo mental e emocional de seu filho, qualificando e nomeando para ele e com ele, seus sentimentos mais profundos e desconhecidos para ambos.
É um processo bastante singular no qual cada um traz suas experiências prévias e expectativas em relação ao outro. Também o bebê traz seu conhecimento adquirido, pois, a vida psíquica da criança não parte de um marco zero com o nascimento.
Evidências têm sugerido que o estabelecimento do vínculo começa durante a gravidez, bem como a vida psíquica do feto, como resultado da dinâmica de eventos psicofisiológicos. Há mudança qualitativa no relacionamento da mãe com seu filho no período pós – parto, mas isso não significa que o relacionamento se inicie com o nascimento.
Por toda a prática clínica e literatura existente podemos constatar que a psicologia da criança pequena e do bebê não é tão simples quanto poderia parecer à primeira vista.
Em relação à alimentação e vínculo mãe/filho, a análise de crianças e de adultos permite obter uma compreensão muito clara acerca dos modos pelos quais o apetite é envolvido na defesa contra a ansiedade e a depressão.
Com tudo isto é possível admitir a existência de uma estrutura mental bastante complexa, mesmo no caso do bebê recém-nascido.
Precisamos, freqüentemente, nos capacitar e atualizar profissionalmente para o entendimento do mundo mental e emocional de nossas crianças tendo em vista que, embora muito se tenha contribuído para maior compreensão da mente humana por meio de tantos colaboradores da psicanálise e áreas afins, ainda muito temos todos a aprender.
NOTA:
O relacionamento entre mãe e filho (sem esquecer da importância da presença do pai nesta díade) é de suma importância para o desenvolvimento da personalidade da criança. Certamente o que somos hoje, como nos relacionamos com as pessoas, à forma como resolvemos os problemas, e muito do que sentimos é em parte, o reflexo desta interação. Para conhecer mais sobre este assunto de forma mais ampla e mais profunda indicamos o livro “Obesidade infantil: aspectos emocionais e vínculo mãe/filho”, de Patricia V. Spada. Ed. Revinter: Rio de Janeiro; 2004.
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